{"id":35595,"date":"2017-06-25T15:18:05","date_gmt":"2017-06-25T22:18:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.taterboy.com\/blog\/2017\/06\/iluminar-a-palavra-para-que-se-torne-viva\/"},"modified":"2017-06-25T15:18:05","modified_gmt":"2017-06-25T22:18:05","slug":"iluminar-a-palavra-para-que-se-torne-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.taterboy.com\/blog\/2017\/06\/iluminar-a-palavra-para-que-se-torne-viva\/","title":{"rendered":"Iluminar a Palavra para que se Torne Viva"},"content":{"rendered":"<h4>[texto originalmente publicado em\u00a02011]<\/h4>\n<h4>Nos games, h\u00e1 a ilus\u00e3o de que constru\u00edmos a narrativa. \u00c9 como se nossa cabe\u00e7a estivesse a pr\u00eamio, desviando de machados e\u00a0foices<\/h4>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taterboy.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/12AyQRXZfw31mJIahfqMmWX8g.jpeg?w=900\"><figcaption><em>\u201cAlan Wake\u201d <\/em>nos confunde o tempo todo, dando a dimens\u00e3o da instabilidade mental do protagonista, que n\u00e3o s\u00f3 perdeu a criatividade como tamb\u00e9m a sanidade\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>O que um jogo de v\u00eddeo game pode ter a ver com uma obra liter\u00e1ria? No caso de <em>Alan Wake<\/em>, tudo, ou quase tudo. Inspirado em diversas obras de suspense, como as de Stephen King, e com influ\u00eancia de s\u00e9ries como <em>Lost<\/em> e <em>Twin Peaks<\/em>, o game traz uma narrativa complexa em que n\u00e3o se pode confiar no que se v\u00ea e que alcan\u00e7a imagens po\u00e9ticas que indicam o valor pr\u00f3prio da literatura.<\/p>\n<p>O enredo \u00e9 semelhante ao de <em>Janela Secreta, Secreto Jardim<\/em>, de Stephen King. Nele, um escritor de best sellers passa por uma crise criativa e resolve se isolar numa cabana \u00e0 beira de um lago. Ele pretende encontrar um pouco de paz para voltar a escrever, mas o lugar nada tem de tranquilo e logo fatos estranhos come\u00e7am a acontecer, fazendo com que ele questione a pr\u00f3pria sanidade. J\u00e1 no jogo, Alan precisa encontrar n\u00e3o s\u00f3 a sua criatividade como tamb\u00e9m a sua esposa, que desapareceu assim que eles chegaram \u00e0 estranha cidade de Bright Falls. Montanhoso e sombrio, o lugar \u00e9 uma refer\u00eancia a <em>Twin Peaks<\/em>, criada por David Lynch no in\u00edcio dos anos 1990 (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=auw3_z9EyRg\">veja o trailer<\/a>). <\/p>\n<p>Por um lado, o jogo peca por uma mec\u00e2nica fraca. Os inimigos, esp\u00edritos de lenhadores e p\u00e1ssaros assassinos (Hitchcock ficaria orgulhoso), s\u00e3o sempre os mesmos, o que torna a experi\u00eancia um pouco cansativa. Outro aspecto negativo s\u00e3o as \u2018miss\u00f5es\u2019, que s\u00e3o tarefas muito simples (pegar uma chave na casa ao lado para abrir uma porta qualquer). Mas o que \u00e9 mais interessante em <em>Alan Wake<\/em> \u00e9 esta aproxima\u00e7\u00e3o entre game e narrativa liter\u00e1ria. <\/p>\n<p>Quem j\u00e1 leu uma boa hist\u00f3ria de terror, sabe o que \u00e9 levar um susto ap\u00f3s alguma frase de grande impacto. Assustar algu\u00e9m tendo como recurso apenas a organiza\u00e7\u00e3o da palavra escrita n\u00e3o deve ser das tarefas mais f\u00e1ceis, mas isso ocorre devido a imers\u00e3o na leitura, do pacto que o leitor faz com o escritor: <em>ok, durante algumas horas vou acreditar que isso a\u00ed que voc\u00ea est\u00e1 dizendo \u00e9 verdade<\/em>. A partir da\u00ed os dois passam a elaborar as imagens e as a\u00e7\u00f5es em conjunto, atrav\u00e9s da imagina\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No caso do game, podemos dizer que h\u00e1 certa vantagem (ou seria desvantagem?), afinal j\u00e1 temos a imagem pronta, n\u00e3o precisamos imagin\u00e1-la. Mas se na literatura o leitor deve agir, criando imagens e completando as lacunas estimuladas pelo escritor, nos games podemos controlar as a\u00e7\u00f5es do personagem, como se escrev\u00eassemos a hist\u00f3ria tamb\u00e9m, e esta intera\u00e7\u00e3o motora permite a ilus\u00e3o de que tamb\u00e9m fazemos parte da constru\u00e7\u00e3o da narrativa. Neste caso a imers\u00e3o ocorre, pois a partir do momento em que somos respons\u00e1veis n\u00e3o s\u00f3 pelos movimentos, mas tamb\u00e9m pelas decis\u00f5es de Alan (matar os inimigos ou simplesmente correr feito um desesperado, por exemplo) \u00e9 como se nossa cabe\u00e7a, e n\u00e3o a do personagem, estivesse a pr\u00eamio desviando de machados e foices. Embora esse controle seja uma ilus\u00e3o?\u2014?h\u00e1 um arco narrativo a ser cumprido no jogo?\u2014?\u00e9 natural que ocorra uma catarse por conta de tantos sustos \u2018reais\u2019.<\/p>\n<p><strong>Ningu\u00e9m \u00e9 confi\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.taterboy.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/12AIL9VWV8QDh0h5dEhyUMMPw.jpeg?w=900\"><figcaption>\u201cQuando direcionamos a lanterna para as letras, elas se tornam aquilo que nomeiam; a palavra \u2018bird\u2019, quando iluminada, se transforma num p\u00e1ssaro negro que sai\u00a0voando\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 interessante perceber que a complexidade da narrativa de <em>Alan Wake<\/em>, que nos confunde o tempo todo, n\u00e3o \u00e9 gratuita, pois serve para dar a dimens\u00e3o da instabilidade mental do sujeito, que n\u00e3o s\u00f3 perdeu a criatividade como tamb\u00e9m a sanidade, chegando a ser internado numa cl\u00ednica para doentes mentais. Como temos apenas o ponto de vista do personagem, ficamos t\u00e3o desorientados quanto ele. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 contada de forma linear, s\u00f3 vamos descobrindo aos poucos os detalhes sobre os personagens?\u2014?muito bem desenvolvidos, ali\u00e1s, pois possuem certas ambiguidades que estamos mais acostumados a encontrar em obras liter\u00e1rias e cinematogr\u00e1ficas. O m\u00e9dico da cl\u00ednica tenta diagnosticar o problema e explicar a situa\u00e7\u00e3o, mas seu comportamento \u00e9 t\u00e3o suspeito que torna praticamente imposs\u00edvel acreditar em suas palavras. Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que o problema esteja realmente em Alan e n\u00e3o no m\u00e9dico ou nas pessoas ao redor.<\/p>\n<p>Desta forma, percebemos rapidamente que ningu\u00e9m \u00e9 confi\u00e1vel, nem mesmo o pr\u00f3prio personagem principal. A rela\u00e7\u00e3o dele com a palavra escrita \u00e9 fundamental para estabelecer esta desconfian\u00e7a e isso fica claro quanto, ao longo de todo o jogo, encontramos jogadas pelo cen\u00e1rio p\u00e1ginas e mais p\u00e1ginas do livro que ele est\u00e1 escrevendo. Este livro antecipa fatos que est\u00e3o para acontecer e nos fazem crer que, na verdade, estamos presos em sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta metanarrativa cria contornos ainda mais interessantes quando somos levados a alguns flashbacks, tal como em <em>Lost<\/em>, mas que n\u00e3o s\u00e3o <em>cut-scenes<\/em> (aqueles filminhos que ajudam a contar a hist\u00f3ria): neles, podemos controlar o personagem, o que cria a ilus\u00e3o de que poder\u00edamos mudar ou distorcer o passado por meio da mem\u00f3ria, o que s\u00f3 faz aumentar a curiosidade e a vontade de chegar logo ao fim.<\/p>\n<p><strong>Beleza sem tamanho<\/strong><\/p>\n<p>Uma grande sacada da narrativa \u00e9 que Alan utiliza diversas armas ao longo do jogo, mas a principal delas \u00e9 a lanterna, que imobiliza os monstros das sombras. Num determinado momento da hist\u00f3ria, o escritor (e n\u00f3s), bastante confuso, pois j\u00e1 n\u00e3o sabe o que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 realidade, se depara com um cen\u00e1rio composto apenas por escurid\u00e3o e palavras, como \u2018telefone\u2019, \u2018\u00e1rvore\u2019, \u2018escrever\u2019, etc. Quando direcionamos a lanterna para essas letras, elas se tornam aquilo que nomeiam, ou seja, a palavra \u2018bird\u2019, por exemplo, quando iluminada, se transforma num p\u00e1ssaro negro que sai voando. O efeito \u00e9 de uma beleza e de um profundidade sem tamanho, nem parece que estamos diante de \u2018apenas\u2019 um game de terror, pois afinal, o que o jogador faz \u00e9 iluminar a palavra escrita para que ela se torne viva. <\/p>\n<p>N\u00e3o seria exatamente esse o papel de um escritor ou de um leitor diante da literatura?<\/p>\n<p><strong>Eder Alex<\/strong> \u00e9 formado em Letras pela Faculdade Educacional Arauc\u00e1ria (Facear)e p\u00f3s-graduado em Literatura Brasileira e Ensino da L\u00edngua Portuguesa pela Universidade Tecnol\u00f3gica Federal do Paran\u00e1 (2008). Trabalha como professor de Comunica\u00e7\u00e3o e de Literatura na Facear e tamb\u00e9m como supervisor administrativo no Hospital Pequeno Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/medium.com\/_\/stat?event=post.clientViewed&#038;referrerSource=full_rss&#038;postId=1f00221d8bfd\" width=\"1\" height=\"1\"><\/p>\n<hr>\n<p><a href=\"https:\/\/revistacapitu.com.br\/iluminar-a-palavra-para-que-se-torne-viva-1f00221d8bfd\">Iluminar a Palavra para que se Torne Viva<\/a> was originally published in <a href=\"https:\/\/revistacapitu.com.br\/\">revista Capitu<\/a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.<\/p>\n<p class=\"wpematico_credit\"><small>Powered by <a href=\"http:\/\/www.wpematico.com\" target=\"_blank\">WPeMatico<\/a><\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[texto originalmente publicado em\u00a02011] Nos games, h\u00e1 a ilus\u00e3o de que constru\u00edmos a narrativa. \u00c9 como se nossa cabe\u00e7a estivesse a pr\u00eamio, desviando de machados e\u00a0foices \u201cAlan Wake\u201d nos confunde o tempo todo, dando a dimens\u00e3o da instabilidade mental do protagonista, que n\u00e3o s\u00f3 perdeu a criatividade como tamb\u00e9m a sanidade\u201d O que um jogo&#8230;<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/www.taterboy.com\/blog\/2017\/06\/iluminar-a-palavra-para-que-se-torne-viva\/\"> Read the full article&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":35596,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[174,377],"tags":[],"class_list":["post-35595","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-games-media","category-gaming"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 5.0.0.1 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"description\" content=\"[texto originalmente publicado em 2011]Nos games, h\u00e1 a ilus\u00e3o de que constru\u00edmos a narrativa. \u00c9 como se nossa cabe\u00e7a estivesse a pr\u00eamio, desviando de machados e foicesO que um jogo de v\u00eddeo game pode ter a ver com uma obra liter\u00e1ria? 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